Sempre fui fascinada por merengues.  A melhor parte de um bolo ou torta de aniversário.  Na infância, adorava ver como Tia Léia separava a clara do ovo com cuidado para que a gema não estragasse o projeto final.  Ela batia as claras com um garfo comum.  O barulho daquele garfo no prato tinha um ritmo sincronizado que parecia dizer que se em algum momento ela começasse a bater as claras num compasso diferente ou ao revés, as claras se transformariam num melê que não serviria pra nada.  

Tia Léa tinha um cuidado extra de não despejar apressadamente a clara de um ovo no mesmo recipiente onde estavam as outras claras.  Ela preferia sujar uma vasilha extra com o ovo recém aberto, inspecionar, separar a gema que ia pra outro recipiente e juntar a clara às demais que já tinham sido devidamente inspecionadas.   Ela dizia: “vai que um ovo vem estragado?”.  Ela estava certa porque volta e meia ela encontrava um ovo ruim ou “galado” que poderia ter arruinado a receita, caso ela não tivesse tomado essa precaução.

E as gemas? Ah, aquelas gemas serviam pra fazer gemada, quindim, e outras delícias.  Às vezes eram aproveitadas pra cobrir as empadas ou empadões antes de irem ao forno.  Davam um bronzeado, dizia ela.  Mas o que despertava a minha curiosidade mesmo era ver a transformação mágica das claras num lindo prato de neve.  Pra me mostrar como ela era boa nisso, Tia Léa  emborcava o prato e me dizia: “Tá vendo … não cai.  Esse é o ponto certo”.

O tempo passou e as batedeiras substituíram os garfos.  Logo depois os bolos com merengues já prontos nas prateleiras do supermercado minimizaram o trabalho da Tia Léa cujos braços se renderam ao tampo.  A magia ficou pra trás, num cantinho da minha lembrança.  Mas ainda penso em fazer uma demonstração dessa técnica manual para minhas netas.  Elas precisam aprender essa técnica rudimentar para aplicar esse mesmo conceito na vida delas.

Diariamente somos desafiados a separar o que não serve, o que nunca vai se tornar um lindo merengue.  Às vezes cedemos à tentação de não usar uma vasilha extra pra despejar cada ovo até por preguiça de lavar toda a louça. Com isso arriscamos que o restante dos ovos seja contaminado por causa da nossa falta de cuidado ou excesso de confiança na nossa sabedoria.

Já não estou falando de Merengue.  Estou falando de pessoas.  Estou falando de  como às vezes somos irresponsáveis ao deixarmos que uma pessoa que percebemos que não trará qualquer benefício ao nosso grupo de verdadeiros e preciosos amigos ou parceiros de negócios faça parte do nosso network.  Aquele mesmo grupo que levamos tanto tempo para construir.     

Os benefícios da mídia social são incontáveis.  Porém temos que admitir que malefícios também existem e que dentre eles encontra-se o pior de todos:  o que faz com que nos tornemos falsos porém amigos de algumas pessoas que no fundo não temos o menor interesse de trazer nem mesmo pra dentro da nossa própria casa.  E que sabemos que se não tomarmos cuidado, acabarão por denegrir nossa imagem perante aqueles que queremos conservar.  Essas pessoas existem e muitas vezes trocamos até “Likes” e outros emojis com elas.

É preciso lembrar que não é saudável mantê-las no nosso convívio virtual.  Que elas não ajudam a máxima citada por Jim Rohn que garante que nós somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos.  Que restringir o acesso a elas não é suficiente. Que ferramentas virtuais tais como o “Restrito” nada mais são do que aquela vasilha extra que ajuda a separar os ovos.  Ela não nos previne totalmente de contaminar os ovos bons.  Melhor jogar os ovos ruins no lixo. E deletar quem não adiciona sim.  Bloquear se preciso for, por que não?

Precisamos ter a coragem de jogar fora todos os ovos ruins.  Do contrário o merengue não sai.  

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